domingo, 29 de março de 2009

De uma vida




Um discípulo perguntou à seu mestre:
-Senhor, se tu visses um ser sofrendo, precisando de ajuda, e as pessoas à volta dele não tentassem sequer ajudá-lo, o que o senhor faria?

E o mestre respondeu:
-Deve-se ponderar. Não devemos apenas ajudar este ser, mas cuidar para que todos ao seu redor aprendam a cuidar dele, pra que isso não voltasse a se repetir. Aquela velha história do "não dê o peixe, ensine a pescar!"

-Mestre, e se o senhor presenciasse alguém ser injustiçado pelos próprios amigos? Qual atitude o senhor tomaria?

-Primeiro, filho, é necessário dizer que essas pessoas não estão se comportando exatamente como amigos. Depois, a questão é apenas esperar! O ódio e a vingança de nada adiantariam e só gerariam um ciclo de dor. A vida tratará de ensinar-lhes. Mesmo que às vezes eu tenha minhas dúvidas...

-Mestre, se o senhor desconfiasse que é dono de um poder muito grande? Um poder tão grande que seria capaz de abalar o mundo inteiro?

-Todos os seres humanos podem fazer algo grande o bastante para abalar o mundo. A questão é que algumas fazem coisas boas, outros fazem coisas ruins e outros simplesmente não fazem nada. Você só precisa tomar cuidado quando for escolher o que vai fazer, qual direção vai tomar. Shakespeare costumava dizer que sempre existem dois lados, e eu acho que ele tinha muita razão nisso...

O mestre olhava as estrelas. Apenas observava-as, quieto, como que aguardando.
E novamente o insaciável discípulo perguntou:
-Mestre, e se zombassem do senhor pelos sonhos e caminhos que escolheu para si?

-Continuaria andando e sonhando
- respondeu o mestre com um sorriso- “Eles” não desviariam seu caminho ou parariam de sonhar por mim. Por qual razão, deveria eu fazê-lo? Pode parecer egoísmo a princípio, mas se você olhar com mais atenção vai perceber que se trata de amor próprio!

-Mestre, e se o machucassem tanto que o senhor não pudesse esboçar uma reação?-
E ao dizer isso sua voz estava embargada de dor- O que o senhor faria?

-Filho, um dia as feridas cicatrizam. Não estou dizendo que vai ser fácil suportar a dor, não é isso, mas é que depois de um tempo você aprende a lidar com elas e elas não doem mais tanto assim! Daí você pode levantar e continuar sua caminhada. As pedras no caminho podem se tornar os muros que nos isolam, mas também os degraus de nossa subida. Tudo depende de para que você vai usá-las.

Neste momento o discípulo parou, como que para refletir, e só voltou a falar depois de alguns minutos. Minutos que pareciam ter durado uma eternidade, para ambos:

-E se o senhor simplesmente não conseguisse mais fazer planos?

-Meu jovem, mesmo que você já tenha seu caminho totalmente traçado é necessário viver um dia de cada vez. Desse jeito é mais fácil perceber em qual estrada estamos, e se realmente queremos seguir por ela. Mas não se preocupe tanto com isso, Deus dá risada de quem faz planos...-
e riu-se novamente.

-E se descobrisses que está sendo preparado para algo importante?

-E quem de nós não está sendo preparado para algo?! Você, eu, “é tudo parte do plano”! Estamos todos sendo preparados para algo. Como eu já disse, tudo vai depender se você vai querer fazer algo grande ou não. Todos são preparados, mas poucos têm a coragem para aceitar essa responsabilidade!

-E se eu não souber se estou pronto?

-Nós só somos chamados na hora certa, nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Você vai saber a hora certa! Todos nós sabemos...

-Mestre, e se depois de tanto lutar, o senhor perdesse?


-Nada é em vão, meu caro! Você constrói coisas inacreditáveis na vida. E se você realmente lutou, realmente deu o sangue e fez o melhor que podia, vai saber que não perdeu, apenas não alcançou a vitória. E tenha certeza de que existe muito mais nisso do que se possa descrever!

-Mestre, o senhor já se sentiu desesperançado ao ponto de não sentir gosto pela vida?!

-Já! Toda vez que alguém acredita que encontrou a resposta sem ao menos ter perguntado!-
e dizendo isso riu-se- Mas não se preocupe, você pode não sentir gosto pela vida, mas gosta menos ainda da morte, ou pelo menos da idéia que tem dela!

-Mestre, o senhor já errou feio?

-Vocês não entendem mesmo, não é?! Se eu acertasse sempre você acha que teria tanto assim para lhe ensinar?! Você também vai errar feio, filho! É a vida!

O discípulo agradeceu e saiu, deixando novamente o mestre a olhar as estrelas. E ele ficou lá, quieto, rezando baixinho, pedindo a Deus que todas aquelas palavras funcionassem pelo menos uma vez. Pelo menos com aquele pobre garoto. Ela ainda não fazia idéia do que estava por vir...


À Renato, com atraso, mas com muita justiça! Feliz Aniversário!

5 comentários:

Aline Shinoda disse...

Um texto que representa muito pra mim. E espero que também represente muito para seus culpados...

Garotinha Jê disse...

um texto bastante delicado... tanto em si, nas palavras que o compõe quanto nas reações que pode provocar. pra mim, um verdadeiro "tapa no pé na orelha".
não q eu me veja nas indagações do discípulo, mas há situações em q me sinto verdadeiramente perdida... e desesperançada.
mas q bom q é só aprendizado.


boa escolha! parabéns pra ele! :)

Alé wind disse...

Muito obrigado, de verdade! eu não consigo dizer mais nada além disso!não consigo...

renato wind disse...

aline obrigado
parabens pra vc tambem pelo texto tao bem feito
eh bom saber que ainda temos amigos verdadeiros
valeu bjo

Shagaly disse...

Sempre VOCÊ: Mestra e Discípula de si mesma!

Vai, Aline! Ainda não sabes o que está por vir...